Atingidos pelos Reflexos...

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Eu protestante


Junior... você ainda é protestante?

Acho que sim...

“Memórias não podem ser esquecidas. O passado, uma vez vivido, entra em nosso sangue, molda o nosso corpo, escolhe nossas palavras... de um jeito ou de outro, aquilo que já fomos continua vivo em nós, seja sob a forma de demônios que queremos exorcizar e esquecer, sem sucesso, seja sob a forma de memórias que preservamos com saudade e nos fazem sorrir com esperança.

Digo isto como prelúdio a uma confissão: sou protestante. Sou porque fui. Mesmo quando me rebelo e denuncio. Minha estória não me deixa outra alternativa. Sou o que sou em meio às marcas de um passado. Mesmo que eu não quisesse, este passado continuaria a dormir comigo, assombrando-me, às vezes, com pesadelos e fúria, às vezes, fazendo-me sonhar com coisas ternas e verdadeiras.

Não foi no cérebro que me tornei protestante. Ao contrário, minha fé é companheira de imagens, memórias, perfumes, músicas, solidões, retiros, caminhadas por campos e beira-mar; rostos, sorrisos, funerais, injustiças, esperanças enterradas, algumas ressuscitadas; certezas de lealdade a toda prova… E aqui eu teria de ir colocando nomes: presenças ausentes com quem compartilho a minha vida. É isto. O decisivo não é a ideia. O decisivo é a pessoa que a gente invoca, não importa que já esteja morta…

Dizendo de outra forma: não sou protestante em virtude das ideias que tenho. Não somos o que somos por termos as ideias que temos. Temos as ideias que temos por sermos o que somos. Primeiro vem a vida, depois vem o pensar…

É necessária muita coragem para protestar, contrapor a voz da consciência individual à voz das autoridades constituídas. Fazendo isto, se declara que, se existe um referencial sagrado para o comportamento, se existe um lugar de verdade para o pensamento, tais lugares não se confundem com os lugares do poder, não importa que o poder tenha sido legitimamente constituído. O segredo e a verdade não habitam as instituições (já diria Paulo), mas invadem o nosso mundo através da consciência.

A primeira coisa que ela (a consciência) faz é colocar um enorme ponto de interrogação sobre as cabeças das pessoas que se dizem autoridades religiosas, políticas, militares, não importa. E é necessário dizer que a autoridade é algo estranho ao espírito do Novo Testamento. Quem quiser ser o maior, que seja o servo. Substituir a espada pelo lava-pés. Deus, poder e verdade, abre mão de tudo, esvazia-se… Leia-se o Novo Testamento e veja-se o papel que as autoridades desempenham ali, a partir de Herodes, mandando matar as crianças, até as autoridades romanas e autoridades judias, mandando matar Jesus. Parece que as pessoas em posição de autoridade são mais suscetíveis à idolatria e à crueldade. É isto que nos conta a história. É claro que a ordem é necessária para tornar possível a nossa convivência. E destas coisas, surge, aos poucos, o espírito da democracia, expressão do doloroso reconhecimento da necessidade da autoridade e da determinação de manter sempre a autoridade no seu devido lugar: não em cima, mas em baixo, como serva e funcionária do corpo sacerdotal – claro! – o povo todo, cada um deles um sacerdote.

Depois ela (a consciência) nos dá permissão para pensar com ousadia os pensamentos mais loucos e avançados. Reprimir o pensamento é reprimir a consciência, é colocar a autoridade estabelecida num nível mais alto que a liberdade do indivíduo. Sei que isto horroriza aqueles que habitam os espaços já organizados e disciplinados da vida eclesial. Tudo já está previsto. O futuro não pode ser diferente do passado.

Mas os comportamentos mudam através dos tempos, e com os estilos de vida surgem novas formas de pensar e novas formas de falar sobre Deus, sobre Cristo, sobre a salvação… E quem seria aquele que tomaria da espada para liquidar os diferentes? Com que direito? Quem quer que se atreva a liquidar os dissidentes está possuído da ilusão de ser o detentor do monopólio do divino, e sucumbe à tentação e à crueldade da espada – eclesial ou secular, não importa.

Posso bem perceber o espanto incrédulo nos olhos do meu leitor, protestante de muitos anos, que julga ouvir coisas tão insólitas. E ele procurará ao seu redor para ver onde é que este protestantismo se encontra. Entre os Batistas? Na Igreja Presbiteriana? Quem sabe nas Comunidades Protestantes? Que dizer dos Metodistas? E vamos caminhando, inutilmente, reconhecendo as pedras, os espaços, identificando a voz da autoridade, ouvindo o barulho típico da tesoura de poder que corta um broto novo… O futuro deve ser uma continuação do passado. As mesmas ideias. A verdade já foi cristalizada em séculos idos. Proibidos de explorar o novo, de pensar o insólito… E as pessoas vão ficando tristes, pensando todos os dias os mesmos pensamentos, fazendo todos os dias as mesmas coisas, orando as mesmas orações espontâneas  formadas com a colagem de frases feitas e estereotipadas, sem coragem para contar as coisas que acontecem no fundo da sua alma, porque isto pode perturbar a simetria da rotina…

Então pra quem me perguntou eu o faço perguntado agora: O que é ser protestante: Uma adesão a conteúdo e prática normativos? Ou ser protestante é um modo radicalmente novo - e cada vez mais novo - de lidar com as Escrituras, com a "fé", com a vida? Ser protestante tem a ver com processo de consciência? Ou tem a ver com manutenção da tradição? O que é ser, afinal, protestante? Quem sou eu, afinal? Quem é esse que me olha, agora, desde o coração da angústia?

Tente explicar...


De recortes do texto de Rubem Alves - “Confissões de um protestante obstinado”:

sexta-feira, 11 de março de 2016

Fazer aniversário é regenerar-se...



Fazer aniversário é regenerar-se... e é preciso... Eu preciso...

Primeiro no amor... regenerando em mim a paixão por Nilce, reavivando-a, como brasa, pelo sopro do carinho e do afago. Isso me mantém vivo.

Depois, regenerar-me enquanto estudante. Reavaliar minha relação com o saber – é com ele que (acho) me relaciono melhor. Regenerarei, então, minha relação com o saber. Reavaliarei minhas bases, meus pressupostos...

Regenerar minha carreira profissional. Ah, isso é urgente. Talvez essa seja minha última ansiedade atual. Resolvida essa questão, pressinto uma alegria jovial inundando todos os pontos de meu corpo, porque, a rigor, sou um homem feliz e de sorte: Nilce, Júlia, Joás; isso é muita sorte para uma única vida. E, no entanto, as urgências burocráticas da vida sabem fazer-se notar. Assim, é preciso que eu me regenere nesse campo...

Sim... regenerar-me... Porque é fácil morrer! Difícil é a vida...

Feliz 45 J


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Se isso é ser Cristão...

Conversa de segunda-feira de manhã, meu colega de trabalho diz bom dia e pergunta (pra me provocar): Foi na igreja ontem? Ele me conhece, conhece a minha historia, e faz a pergunta só pra me ver dar aquela risadinha irônica... e só a risadinha já responde a pergunta dele... O que  ele esperava mesmo é ouvir de mim (além da risadinha), alguma crítica em relação ao assunto. Talvez porque lá na “igreja” aonde ele vai, ninguém fale, sobre o que ele gosta de falar comigo... 


Já tivemos essas conversas muitas vezes e ele sabe que meu objetivo é a crítica transformadora. Não é a crítica destrutiva. Interessa-me saber o que o sujeito pensa, no que ele acredita, em que ele se engaja, a que ele se dedica.


Mas... como disse um pastor pra mim dias atrás: “é cômodo ficar olhando a distância e tirando conclusões, apenas criticando de forma inconsequente”... O meio não suporta críticas. Uma vez que você saiu do “templo”... Você está longe ... Sabe aquela história do pedreiro que constrói um muro torto? Se você não é pedreiro, como pode falar mal do serviço? É mais ou menos por aí... Viva com o muro torto e não diga nada...


Mas são apenas palavras, que eu mesmo não pegarei em armas contra os poderes eclesiásticos...


O que significa, hoje, dizer que se é cristão? Há tantos modelos!, e modelos antagônicos!. E, no entanto, todos eles se dizem cristãos. Assim, "cristão" virou um rótulo de grife, com pouquíssimo conteúdo histórico. De modo que a questão me parece irrelevante. Os meus valores são, em certo sentido, protestantes, no sentido teórico-filosófico da corrente. Teologicamente, não: porque o Protestantismo é "clássico", e minha teologia não acompanha mais a estrada clássica, das doutrinas reveladas.


Se isso é poder ser chamado de cristão, sou. Se ser cristão é estar, dia sim e dia também, em templos, sentado, de pé, calado, pulando, ouvindo sermões que, muitas vezes, não têm nenhuma fundamentação nem em Bíblia nem em Tradição alguma, a mistura de mau gosto entre Faustão, Pânico na TV e Jô Soares; se ser cristão é repetir, sob a batuta de um sacerdote disfarçado ou ordenado, mantras, mitos e modas; se ser cristão é condenar todos os outros religiosos; se ser cristão é ficar a olhar para cima, é ficar repetindo jargões planejados, se é entrar no grupo de louvor à Teló; se ser cristão é querer impor a todos os outros minha moral, minha tradição e as verdades de "meu Deus" - bem, game over.



Mas quem disse que isso é ser cristão? Eles? Ah... entendi....



Certamente que encontrarei em mim, ainda, muito da tradição cristã. Não a negarei, jamais. Mas, ao contrário de muitos de meus amigos, meu discurso não é de didática positiva, de escrever sobre as coisas boas do Cristianismo, com o intuito de que se deixem de fazer as coisas ruins que igualmente o caracterizam. Não - eu pinto, com cores fortes, os crimes que cometeram contra mim e que se cometem dentro das “igrejas” às quais meu colega perguntou se eu teria ido ontem...



E vamos trabalhar... que a Segunda-Feira é braba...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Gerências...


Sobre a rotina corporativa e as relações em seu ambiente - Não é de todo agradável. Todavia, é mais fácil do que parece, à primeira vista. Porque, a rigor, as cenas são sempre as mesmas, as pessoas, muito parecidas, os problemas, quase cópias uns dos outros. A forma de se gerenciar é uma roda - fazê-la rodar perfeitamente, a isso reduz-se a tarefa. O desafio é o eixo, a roda em si, as pedras, a estrada, e, afinal, até, o rumo...

Em qualquer situação, gerir
as situações nesse mundo é lidar com o medo. Há dois modos de medo, incontornáveis, numa gestão. Cada um responde por um ambiente:

 Ambiente um, marcadamente político: o medo é o de não fazer parte da "panela". Onde quer que estejamos, seja numa empresa, numa ONG, numa repartição pública, se o ambiente, se a regra do jogo, são as relações políticas, o medo se instala entre aqueles que não fazem parte da panela.

 Ambiente dois, marcadamente de resultado: o medo se instala entre aqueles que, a rigor, ou possuem reais deficiências de performance, ou têm de si uma perspectiva, digamos, de baixa estima. Só os melhores sobrevivem nesse ambiente, é a regra, e o medo se instala então entre os não melhores e/ou entre aqueles que se acham menos eficientes.

Mas não há como fugir desse medo, senão por meio de terapias de autocontrole... O medo há de revelar-se fundado ou não. Mas sempre lá está ele, nos olhos, no comportamento mal disfarçado de uns, na agitação solícita de outros. Medo.

Medo, porque, a rigor, todos estão ali pelo pão. O que, sob a perspectiva do gestor, é um equilíbrio de eficiência no corpo institucional
- para o sujeito humano, isso representa, se ele é descartado, um colapso a médio prazo - de onde virá o pão? Mesmo entre religiosos, que sabemos que o maná é bem um mito narrativo... Na prática, o maná virá na forma de outro emprego, na ajuda familiar, essas coisas, porque, cair do céu, literalmente, isso todos sabemos que não acontece.

Como fugir desse estresse? Não tem como. Se você é bom, mas não é da panela, e se o ambiente é político, você corre sério risco de dançar. Se você não é bom, mas é da panela, mas o ambiente é de resultado, você corre o risco de dançar. E, de mais a mais, se mesmo você sendo bom, não havendo panelas, mas o cobertor parece curto demais, como você relaxa? Não relaxa. Religiosamente, você ora para que a teologia esteja errada, e
as pessoas não sejam livres, e Deus possa fazer o gestor fazer o que você e Deus querem que ele faça - manter você. Por que no caso do religioso, ele tem essa vantagem, a de achar que Deus pode fazer um gestor fazer o que ele,  Deus, quer, sem que isso seja o que ele, gestor, queira...

Tem a ver com a Teologia Calvinista – Deus, (ou o gestor) já escolheu desde o princípio, alguns desses seres humanos para salvar... Será você um deles?
 
peroratio.blogspot. com

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

De quando fazemos Deus ser a imagem de nossos interesses

Peroratio: (2012/694) De quando fazemos Deus ser a imagem de ...:

1. Vou lidar aqui com a tradição do Antigo Testamento. Parte do que vou dizer tem sustentação apenas nesse tradição, porque os fatos históricos não se deram da forma como a tradição os conta. Todavia, como o que me interessa é justamente a forma como os "judeus" (uma parte deles) se viram e contaram a sua tradição (de forma sempre política, como programa de controle social), se há divergência entre as coisas tais quais se deram e a tradição não faz a menor diferença...













quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Eu monge...




Eu monge...

 
Aprendi a ler a bíblia criticamente...

 
Aliás, dizer que se leu algo – seja o que for -  e não ser crítico, para mim, é a mesma coisa que não ler.

No caso da Bíblia, para você tentar entender o que o texto - seus autores - quiseram dizer, você precisa dizer que é leitura crítica, de tanta alegoria e embromação que o mundo conhece e de que as livrarias estão abarrotadas. Mas se poderia simplesmente dizer ler historicamente. Ler histórico-criticamente... Ler para entender. Ler para ouvir. Pois quando se quer saber se uma pessoa é mais do que um analfabeto funcional, vê-se se ela sabe entender o que um texto quer dizer.

Na minha experiência, portanto, a leitura crítica da Bíblia, serve para duas coisas:

a) entender o que os autores e os textos quiseram dizer - essa é minha "religião".

b) salvar-se das garras de "gerentes de boca", "homens de deus" que se arvoram em messias, em apóstolos, em papas, em "pastores", que acham que podem determinar o que Deus pensa, quer e diz, que controlam massas e multidões pela crença, pela fé, pela ingenuidade. Nenhum deles resiste à leitura crítica, porque só faz leitura crítica quem já se libertou. Por isso, têm horror à leitura crítica, porque ela liberta a ovelha do redil, liberta o gado do curral...

E nada disso era preciso.

Não fora a invenção do controle das pessoas pelo "ungido"; fosse a igreja, de fato e verdadeiramente, uma comunidade de libertação e liberdade; fosse a comunidade de crença uma comunidade pedagógica, de autonomização das pessoas; se fosse, mesmo, de verdade, um lugar de gente livre - e não é nada disso, então não se precisaria temer a leitura crítica, porque isso nada diria do modo de ser das lideranças evangélicas. Mas, como os pecados políticos dos sacerdotes da Bíblia se repete nos "homens de Deus" de hoje, quando você lê e desarma o jogo bíblico, você automaticamente lê e desarma o jogo político das comunidades...

Não era preciso.

A culpa não é da leitura crítica. Conheci e fui aluno de um pastor cuja leitura crítica da Bíblia não era problema, não é verdade, Elinaldo Pita? A crítica, desconstrutiva da tradição nasceu lá, na aula de filosofia, a convite dele.

Eu só cansei. Não vale a pena. Foi um golpe de sorte aquele encontro. Mas é raro, e não vou me desgastar, não mesmo, que estudar a Bíblia com seriedade demanda tempo e energia, energia que não vou gastar com enfrentamentos inúteis em comunidades presas pelo dogma e pela política pastoral.

Não vale a pena.

Mas insisto: todo pastor que demoniza a leitura crítica da Bíblia tem, no fundo, é medo de ela revelar a consistência de seu domínio bíblico, de revelar o fato de que ali, dizendo tratar-se de Bíblia, se prega tradição mal e mal manejada, enganação, retórica, negligência...

Repito: a culpa não é da leitura crítica.

A culpa é da qualidade pastoral, cada vez pior, que, não podendo suportar a leitura do próprio livro sagrado, inventa para ele uma leitura cada vez mais acomodada aos jogos sacerdotais, de massa, de catarse...

Resistirei. Esperarei. Se os dias maus passarem, passaram. Se não passarem, não terei deixado o vento mau desses dias lamber a minha face... Não, não vou deixar.

E, enquanto resisto, estudo. É, no fundo, uma espécie de monasticismo meu, de refúgio no deserto - monastério da resistência...

Eu, monge.

 
 
Texto “emprestado” do Professor Osvaldo Luiz Ribeiro...

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Evangelismo - A Estratégia da Sedução

“Persuadiste-me, ó SENHOR, e persuadido fiquei; mais forte foste do que eu, e prevaleceste...” (Jeremias 20:7).
 
Nesses dias não é fácil falar sobre evangelização, porque essa é uma palavra usada por muita gente e de diferentes maneiras. Há quem pense na evangelização apenas como expansão da igreja, crescimento da instituição e aumento explosivo do número de batismos e nomes na relação de membros.
 
Em geral quem entende evangelismo dessa forma, fica muito preocupado com os relatórios anuais, porque os avalia em termos mercantilistas, próprios à ideologia do sucesso que nos rodeia. Entendo que embora importantes, o aumento da membresia e o crescimento de uma igreja, são muito mais a conseqüência do evangelismo que propriamente sua natureza. Quem deseja medir a qualidade da fé com base nesses critérios, terminará contribuindo para o desenvolvimento da desagradável competição de estratégias missionárias entre igrejas e denominações, disputa bastante discutível do ponto de vista ético e teológico.
 
O texto bíblico contido no livro do profeta Jeremias nos indica um sublime caminho em direção à forma de evangelizar.
 
“Persuadiste-me, ó SENHOR, e persuadido fiquei; mais forte foste do que eu, e prevaleceste...”
 
Muitos de nós conhecemos a estória do Pequeno Príncipe, clássico infanto-juvenil de Saint-Exupéry, transformada recentemente em filme. Em certo trecho do livro, o principezinho encanta-se com a beleza de uma raposinha e lhe diz: “venha aqui brincar comigo”. Mas a raposinha responde: “Eu não posso... não fui cativada ainda...”. O príncipe lhe pergunta o que significa cativar, e a raposa responde: “Cativar é criar laços. Você não é para mim nada mais do que um menino entre outra centena de meninos. E para você, eu sou apenas uma raposa, como outras tantas raposas. Mas se você me cativar, nós sentiremos falta um do outro. Você será para mim o único no mundo e eu seria para você a única no mundo”. Depois disso, dia após dia, o pequeno príncipe aproximava-se pouco a pouco da raposinha. Ambos se cativaram.
 
Cativar alguém é um ato elevado. E é assim que Jeremias descreve a ação de Deus. Ele o cativou, o seduziu. E ao agir assim, revelou-se não como um Deus preocupado com mais um, mas um Deus cuja marca central é a pessoalidade, o amor, a gratuidade, o encanto. Isso nos leva a compreender melhor o que significa a palavra evangelizar. Não é somente convencer alguém a respeito de certas doutrinas. Mais do que isso, é cativar as pessoas, compartilhar com elas nossa própria vida, tal como Cristo fez (e faz) conosco. Foi o que aconteceu entre o pequeno príncipe e a raposinha – ambos compartilharam seu tempo um com o outro.
 
Evangelização tem necessariamente que passar por essa via: aproximação gradativa e constante, tal como o principezinho aprendeu. E esse movimento não pode ser motivado apenas pela busca de resultados dos quais possamos nos orgulhar. O principal objetivo da aproximação é servir, compartilhar Cristo e contribuir para que a vida do nosso próximo seja mais livre, feliz, realizada e completa.
 
Quando nós cristãos aprendermos que a evangelização deve ser conduzida de modo diferente sem querermos tanto a qualquer preço que as pessoas aceitem nossa doutrina, quando passarmos a dedicar mais tempo a cativar as pessoas, então a fé cristã se tornará muito mais relevante.
 
Quando a evangelização começar a acontecer em outra perspectiva, com encanto e ternura, haverá mais abraços e a saudação de paz será realmente sinal de reconciliação entre Deus e entre nós, sinal de restauração de relações rompidas, sinal de graça nas ruas e praças. E nós temos urgência disso, principalmente em nosso mundo, tão marcado pela violência e perda de sensibilidade.
 
Espero que o texto de Jeremias nos ensine a compreender a evangelização numa nova perspectiva. A opção pelo abraço, o encanto, a poesia, o despertar da sensibilidade, do carinho e da acolhida. E que a graça de Deus me ajude a cativá-los...
 
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"; (Antoine de Saint-Exupery)

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Desigrejado... eeeeu??



Um amigo, membro da Assembleia me procura essa semana, pedindo auxílio no preparo da lição da escola dominical. O material usado, publicado pela CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus), traz como tema: “A nova religiosidade”. Aborda em um de seus tópicos a questão dos “desigrejados”. Fenômeno que vem crescendo nos últimos anos.

 

Em um dos trechos da lição, o autor atribui como uma das causas do fenômeno o seguinte motivo: “Não há dúvida que muitos desse grupo foram enganados e seduzidos por ideias, doutrinas e demais pensamentos que têm origem nas ações ou nas astutas ciladas do Maligno ... Outros saem por insubordinação, falta de compromisso e também por quererem dominar sobre o povo...”  - assim, o “desigrejado” ou é influenciado pelo capeta ou tem problema de ego.


O renomado Pr. Augusto Nicodemus (presbiteriano) é um dos pastores que também anda preocupado com os “desigrejados”.

 

Ele diz em um de seus artigos sobre o tema:é difícil olhar adiante e entender qual será o futuro da igreja evangélica”...  – Concordo com ele.

 

Vivi quase 30 anos dentro de uma igreja evangélica tradicional. Com formação na área teológica, durante boa parte desse tempo fiz parte da liderança/diretoria, dava aula na EBD para jovens e adultos, era envolvido com os grupos de evangelização e ministrava cursos na área de ensino. Porém meu conceito de igreja hoje mudou muito. Gostaria muito de poder compartilhar dessas minhas experiências do passado, e do porque não concordar com o sistema da maioria das igrejas evangélicas hoje, só que é óbvio  -  não sou bem vindo dentro do “sistema” para compartilhar esse tipo de ideia... Mas o faço sempre que posso, como agora...

 

Frequento esporadicamente a EBD numa Igreja Batista em Campinas... Na mesma classe que eu, um amigo dos tempos da faculdade. Alguns dias atrás, conversávamos ao final de uma aula justamente sobre esse assunto...

 

Ele se mostrava preocupado comigo pelo fato de eu não frequentar com mais regularidade os “cultos”...; Por coincidência, na EBD daquele dia havíamos acabado de estudar o discurso de Estevão em Atos, quando ele diz perante o sinédrio que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas...

 

Com jeito (porque pra falar sobre esse assunto com o crente que está apegado às doutrinas mais do que ao texto bíblico, tem que ter jeito), tentei explicar pra ele, que a meu ver esse formato da “igreja evangélica” hoje, está bem distante daquela ekklesia do 1º século... Conversei uma meia hora com ele, sobre o que eu penso sobre igreja, comunhão, adoração, serviço, etc...

 

Pra resumir, no final ele disse que vamos ter que conversar mais sobre isso, pois ele não teve argumentos pra me convencer que eu deveria ir mais à “igreja”...
 
 
Mas a questão pra mim, não é essa... De quem tem mais ou menos argumentos pra entender, defender ou definir a igreja... A questão pra mim, é que assim como Nicodemus, o que me faz mal é ver a desvirtuosidade (acho que essa palavra não existe) da igreja institucionalizada nos dias de hoje...

 

Penso que a proposta de Jesus não é, com certeza, aquilo que tanta gente imagina, como dar duro no “ministério”, reunir uma multidão de fiéis ou construir novas salas e templos. Tem mais a ver com a vida que se pode enxergar, provar e tocar, algo que se pode desfrutar todos os dias. O que mais vemos dentro de nossas igrejas, são pessoas concentrarem-se e envolverem-se de tal maneira no trabalho para Jesus que acabam perdendo de vista quem ele realmente é.

 

Nós lemos em nossas bíblias: “Alegrei-me quando me disseram vamos à Casa do Senhor”... e queremos convencer as pessoas, de que “essa casa” são os templos de nossas igrejas. Isso já está arraigado, enraizado e concretado na mente de todos os “crentes” de tal forma que ninguém mais consegue perceber que a “casa de Deus” na verdade, está se movendo durante os sete dias da semana e os 365 dias do ano. Ela não fica fixa naquele endereço para o qual vão no domingo. Não conseguem mais perceber o que há de mais precioso no evangelho, é que ele nos liberta da idéia de que Deus reside em um local determinado. Num lugarzinho escondido, mas especial de suas mentes, elas tem a imagem de que Deus estaria encerrado no recesso do templo e apenas disponível para pessoas especiais em ocasiões especiais. Uma das lições mais significativas que Jesus deu a seus discípulos foi de parar de procurar Deus por meio de rituais e de regras. Ele não tinha vindo para enfeitar a religião deles com cultos, cerimônias e templos bonitos; mas para oferecer-lhes uma relação. As pessoas porém, não concebem essa idéia. Não conseguem imaginar um discípulo de Cristo livre dos cercos institucionais de uma igreja, de uma denominação, de uma teologia, de uma doutrina, de uma "cobertura espiritual" ou de um líder religioso.

 

Junto com isso, soma-se nosso modo de vida individualista, capitalista e consumista... E temos “igrejas” que se tornaram em verdadeiras agências bancárias do céu,  que vendem e financiam o sonho de consumo de seus fiéis...

 

A Casa do Senhor (se podemos assim dizer) somos nós...-  Não o “Templo de Salomão” do Edir Macedo, nem A Assembleia de Deus do Malafaia”, Minha Igreja Batista” ou “Sua Igreja Presbiteriana”.

 

O termo “desigrejado” usado pelo Nicodemus no artigo que ele escreveu , pelo autor da lição publicada pela CPAD, e que virou moda nesses dias, toma como ponto de vista, as pessoas que deixaram de estar todos os domingos entre as quatro paredes do templo.

 

Mas tenho que lembrar que não posso chamar de “desigrejado”, aquele que foi redimido pelo sangue de Cristo, que busca comunhão e a prática dos princípios Cristãos através do relacionamento com pessoas em sua comunidade (trabalho, vizinhos, padaria, supermercado, banco, faculdade, escola, academia...), que testemunha sua fé através de palavras e de vida. Esse apesar de ter o rótulo de “desigrejado”, por aqueles que têm a ideia fixa num templo de tijolos, ainda assim pertencem ao “Corpo de Cristo”. (Ou Ele não disse que onde duas ou três pessoas se reunissem em Seu nome, lá ele estaria?...).

 

É... tá difícil... , O assunto ser tema de debate, numa aula de EBD, dentro de um conteúdo editorial programático de uma das maiores editoras evangélicas do país... já é um indicador do tamanho da preocupação, e de que precisamos mudar algo.  - A GRAÇA liberta!

 

Para saber mais sobre o assunto leia:
“Porque você não quer mais ir à Igreja? – Uma Historia sobre o verdadeiro sentido do amor de Deus”
Wayne Jacobsen e Dave Coleman – Editora Sextante

 


terça-feira, 25 de agosto de 2015

Das vantagens e desvantagens de não ser um religioso...



Pra falar do assunto, penso que eu tenho uma vantagem em relação ao religioso. Antes de tornar-me um questionador, curioso, leitor e estudante sobre assuntos da Teologia e religião,  alguém que olha a religião "desde fora", vivi-a por dentro, como um conservador fundamentalista. Tive meus pelo menos quinze anos de "fundamentalismo" - de corte batista, ainda por cima... Sei como a cabeça de um religioso funciona, e sei como a cabeça de um doutrinário-dogmático funciona: tive minha fase ... Acreditem: se estamos falando das experiências evangélicas tradicionais brasileiras. Entreguei minha consciência a elas, durante quinze anos - pelo menos...


 
Os religiosos que me conhecem e me ouvem ou leem devem lembrar que eu carrego dentro de mim as duas experiências - sei exatamente como funciona a cabeça do religioso (acreditem, sei!), e sei também, pela instrução de professores que tive no curso de Teologia como "deve" funcionar a do pesquisador, que é o que tenho perseguido por natural expressão de minha interioridade.

 
 
 
Quando eu digo que rito religioso nenhum é capaz de ajudar você a aproximar-se da realidade para "saber" como ela é, é porque estou dizendo que a função dele é dizer a você - sem checar - o que isso diz que o real é. A religião e os ritos evangélicos são o modo evangélico de ver o mundo. Ele é diferente do islâmico, que é o modo do Islã ver o mundo... Quando falamos de realidade, não pode ser de religião que falamos...
 
 
Para aproximar-se do real, você deve, antes de mais nada, admitir que tudo que você acha que sabe sobre ele pode estar errado. Você só saberá depois de pôr seu pensamento em cheque e ir para o mundo, testá-lo, seja empiricamente, seja racionalmente, submetendo-o aos mais severos regimes de confrontação. Mas fazer isso, para a fé, é, já, pecar, apostatar. Mentem para você, dizendo que a dúvida é o fim da fé, logo da verdade, quando ela é a condição para o início da caminhada. A dúvida é o fim do dogma, isso sim... Da verdade ela é é a condição.
 
 
Um religioso, meus amigos, um cristão, e, lamento dizer, um evangélico - enquanto evangélico e na condição de evangélico, sujeitando-se ao regime evangélico e de pé sobre o princípio evangélico da verdade dogmática, ensinada em catequese sem possibilidade de dúvida, simplesmente está proibido por sua própria consciência, por força da educação que recebe e do tipo de fé que tem, de assumir a possibilidade de estar errado. Ele sempre está certo - até de noite, quando põe a cabeça sobre o travesseiro, ou quando olha no espelho e, principalmente, quando lê a Bíblia por meio da doutrina, confirmação fundamental e subjetiva de seu estado de verdade...
 
 
Para esse não há a mínima possibilidade de que a doutrina que segue não seja a verdade...
 
 
Religião pode dar conforto, como remédios alopáticos dão - é a melhor função dela. Mas "verdade" é algo absolutamente pernicioso para a religião - é como o sal sobre a lesma, como o Sol sobre o orvalho.
 
 
 
E, nesse sentido (eu disse.., nesse sentido), se você quer ir para o céu, religião, se quer saber o que o mundo é, ciência...
 
 
 
Das leituras em:
peroratio.blogspot.com - Osvaldo Luiz Ribeiro

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