Atingidos pelos Reflexos...

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DA LAICIDADE NO SÉCULO XXI


Preâmbulo

Considerando a crescente diversidade religiosa e moral no seio das sociedades atuais e os desafios encontrados pelos Estados modernos para favorecer a convivência harmoniosa; considerando também a necessidade de respeitar a pluralidade das convicções religiosa, atéias, agnósticas, filosóficas e a obrigação de favorecer, por diversos meios, a decisão democrática pacífica; e, finalmente, considerando a crescente sensibilidade dos indivíduos e dos povos com relação às liberdades e aos direitos fundamentais e aos direitos fundamentais, incentivando os Estados a buscarem o equilíbrio entre os princípios essenciais que favorecem o respeito pela diversidade e a integração de todos os cidadãos com a esfera pública, nós, universitários, acadêmicos e cidadãos de diferentes países, propomos a reflexão de cada um e o debate público, sobre a seguinte declaração:

Princípios fundamentais

Artigo 1º: Todos os seres humanos têm direito ao respeito à sua liberdade de consciência e à sua prática individual e coletiva. Este respeito implica a liberdade de se aderir ou não a uma religião ou a convicções filosóficas (incluindo o teísmo e o agnosticismo), o reconhecimento da autonomia da consciência individual, da liberdade pessoal dos seres humanos e da sua livre escolha em matéria de religião e de convicção. Isso também implica o respeito pelo Estado, dentro dos limites de uma ordem pública democrática e do respeito aos direitos fundamentais, à autonomia das religiões e das convicções filosóficas.

Artigo 2º: Para que os Estados tenham condições de garantir um tratamento igualitário aos seres humanos e às diferentes religiões e crenças (dentro dos limites indicados), a ordem política deve ter a liberdade para elaborar normas coletivas sem que alguma religião ou crença domine o poder e as instituições públicas. Conseqüentemente, a autonomia do Estado implica a dissociação entre a lei civil e as normas religiosas ou filosóficas particulares. As religiões e os grupos de convicção devem participar livremente dos debates da sociedade civil. Os Estados não podem, de forma alguma, dominar esta sociedade e impor doutrinas ou comportamentos a priori.

Artigo 3º: A igualdade não é somente formal; deve-se traduzir na prática política por meio de uma constante vigilância para que não haja qualquer discriminação contra seres humanos no exercício dos seus direitos, particularmente dos seus direitos de cidadão, independente deste pertencer ou não a uma religião ou a uma filosofia. Para que a liberdade de pertencer (ou de não pertencer) a uma religião exista, poderão ser necessárias “acomodações razoáveis” entre as tradições nacionais surgidas de grupos majoritários e as de grupos minoritários.

A Laicidade como princípio fundamental do Estado de Direito

Artigo 4º: Definimos a laicidade como a harmonização, em diversas conjunturas sócio-históricas e geopolíticas, dos três princípios já indicados: respeito à liberdade de consciência e a sua prática individual e coletiva; autonomia da política e da sociedade civil com relação às normas religiosas e filosóficas particulares; nenhuma discriminação direta ou indireta contra os seres humanos.

Artigo 5º: Um processo laicizador emerge quando o Estado não está mais legitimado por uma religião ou por uma corrente de pensamento especifica, e quando o conjunto de cidadãos puder deliberar pacificamente, com igualdade de direitos e dignidade, para exercer sua soberania no exercício do poder político. Respeitando os princípios indicados, este processo se dá através de uma relação íntima com a formação de todo o Estado moderno, que pretende garantir os direitos fundamentais de cada cidadão. Então, os elementos da laicidade aparecem necessariamente em toda a sociedade que deseja harmonizar relações sociais marcadas por interesses e concepções morais ou religiosas plurais.

Artigo 6º: A laicidade, assim concebida, constitui um elemento chave da vida democrática.
Impregna, inevitavelmente, o político e o jurídico, acompanhando assim os avanços da democracia, o reconhecimento dos direitos fundamentais e a aceitação social e política do pluralismo.

Artigo 7º: A laicidade não é patrimônio exclusivo de uma cultura, de uma nação ou de um continente. Poderá existir em conjunturas onde este termo não tem sido utilizado tradicionalmente. Os processos de laicização ocorreram ou podem ocorrem em diversas culturas e civilizações sem serem obrigatoriamente denominados como tal.

Debates sobre a laicidade

Artigo 8º: A organização pública do calendário, as cerimônias fúnebres oficiais, a existência de “santuários cívicos” ligados a formas de religião civil e, de maneira geral, o equilíbrio entre o que surgiu da herança histórica e aquilo que se atribui ao pluralismo atual em matéria de religião e de convicção de uma determinada sociedade, não podem ser considerados solucionados de maneira definitiva, e lançar-se no terreno do inimaginável. Ao contrário, isto constitui o centro de um debate laico pacífico e democrático.

Artigo 9º: O respeito concreto à liberdade de consciência e a não-discriminação, assim como a autonomia da política e da sociedade frente a normas particulares, devem ser aplicados aos debates necessários relativos às questões associadas ao corpo e à sexualidade, com a enfermidade e a morte, com a emancipação das mulheres, a educação dos filhos, os matrimônios mistos, a condição dos adeptos de minorias religiosas ou não religiosas, dos “não-crentes” e daqueles que criticam a religião.

Artigo 10º: O equilíbrio entre três princípios constitutivos da laicidade também é um fio condutor para os debates democráticos sobre o livre exercício de culto, sobre a liberdade de expressão, a manifestação de convicções religiosas e filosóficas, o proselitismo e os limites decorrentes do respeito pelo outro, bem como as interferências e as distinções necessárias entre os diversos campos da vida social, as obrigações e os acordos razoáveis na vida escolar ou profissional.

Artigo 11º: Os debates sobre estas diferentes questões colocam em jogo a representação da identidade nacional, as regras de saúde pública, os possíveis conflitos entre a lei civil, as representações morais particulares e a liberdade de decisão individual, como um marco do princípio da compatibilidade das liberdades. Em nenhum país e em nenhuma sociedade existe uma laicidade absoluta; tampouco as diversas soluções disponíveis em matéria de laicidade são equivalentes.

A Laicidade e os desafios do século XXI

Artigo 12º: A representação dos direitos fundamentais evoluiu muito desde as primeiras proclamações de direitos (final do século XVIII). A significação concreta da dignidade dos seres humanos e da igualdade de direitos está em jogo nas soluções propostas. O limite estatal da laicidade enfrenta hoje problemas provenientes de estatutos específicos e de direito comum, de divergências entre a lei civil e determinadas normas religiosas e de crença, de compatibilidade entre os direitos dos pais e aquilo que as convenções internacionais consideram como direitos da criança, bem como direito à “blasfêmia” ou à liberdade de expressão.

Artigo 13º: Nos diversos países democráticos, para numerosos cidadãos, o processo histórico de laicização parece ter chegado a uma especificidade nacional, cujo questionamento suscita receios. E, quanto mais longo e conflituoso tiver sido o processo de laicização, em maiores proporções se manifestará o medo de mudanças. Não obstante, na sociedade ocorrem profundas mutações, e a laicidade não poderia ser rígida e imóvel. Portanto, é necessário evitar tensões e fobias, para poder encontrar novas respostas aos novos desafios.

Artigo 14º: Nos locais onde ocorrem, os processos de laicização corresponderam historicamente a uma época em que as grandes tradições religiosas dominavam os sistemas sociais. O sucesso de tais processos criou certa individualização do religioso e daquilo que se refere às crenças, o que se transforma em uma dimensão da liberdade de decisão pessoal. Contrariamente, o que se teme em determinadas sociedades, a laicidade não significa abolir a religião, mas a liberdade de decisão em matéria de religião. Isso também implica, nos dias de hoje, onde necessário, desligar o religioso daquilo que se encontra assentado na sociedade e de todas as imposições políticas. Sem embargo, quem fala de liberdade de decisão também se refere à livre possibilidade de uma autenticidade religiosa ou de convicção.

Artigo 15º: Portanto, as religiões e convicções filosóficas se constituem socialmente em locais de recursos culturais. A laicidade do século XXI deve permitir articular diversidade cultural e unidade do vínculo político e social, da mesma maneira que as laicidades históricas tiveram que aprender a conciliar as diversidades religiosas e a unidade deste vínculo. É a partir deste contexto global que se faz necessário analisar o surgimento de novas formas de religiosidade, tanto de combinações entre tradições religiosas, de misturas entre o religioso e aquilo que não é religioso, de novas expressões espirituais, mas também de formas diversas de radicalismos religiosos. Igualmente, é no contexto da individualização que se deve compreender porque é difícil reduzir o religioso ao exclusivo exercício do culto, e porque a laicidade como marco geral da convivência harmônica é, mais do que nunca, desejável.

Artigo 16º: A crença de que o progresso científico e técnico pode engendrar progresso moral e social encontra-se atualmente em declínio; isto contribui para tornar o futuro mais incerto, dificultar a sua projeção e tornar os debates políticos e sociais menos legíveis. Depois das ilusões do progresso, corre-se o risco de privilegiar unilateralmente os particularismos culturais. Esta situação nos estimula a ser criativos com relação à laicidade, para inventar novas formas para o vínculo político e social, capazes de assumir esta conjuntura inédita e encontrar novas relações com a história que construímos em conjunto.

Artigo 17º: Os diferentes processos de laicização correspondem aos diferentes desenvolvimentos dos Estados. As laicidades, por outro lado, tomaram diversas formas, dependendo do fato do Estado ser centralista federal. A construção de grandes conjuntos supra-estatais e o relativo, mas real, desprendimento do jurídico com relação ao estatal geram uma nova situação. O Estado, sem embargo, encontra-se mais em uma fase de mutação do que em verdadeiro declínio. Tende a atuar menos na esfera do mercado, e perde, pelo menos de maneira parcial de Estado Benfeitor que ocupou em muitos países em maior ou menor proporção. Por outro lado, intervém em esferas até agora consideradas como privadas, isto é, íntimas, e talvez responda mais do que no passado a demandas sobre segurança, algumas das quais podem ameaçar as liberdades. Portanto, necessitamos inventar novos vínculos entre a laicidade e a justiça social, assim como entre a garantia e a ampliação das liberdades individuais e coletivas.

Artigo 18º: Ao mesmo tempo em que existe uma vigilância para que a laicidade não adote, neste contexto, aspectos da religião civil ou se sacralize de alguma forma, a aprendizagem dos seus princípios inerentes poderá contribuir para uma cultura de paz civil. Isso exige que a laicidade não seja concebida como uma ideologia anticlerical ou como um pensamento intangível. Além disso, em contextos onde a pluralidade de concepções do mundo se apresenta como uma ameaça, esta deverá aparecer como uma verdadeira riqueza. A resposta democrática aos principais desafios do século XXI chegará através de uma concepção laica, dinâmica e inventiva. Isso permitirá que a laicidade se mostre realmente como um princípio fundamental de convivência.

***

*Declaração apresentada por Jean Baubérot (França), Micheline Milot (Canadá) e Roberto Blancarte (México) no Senado Francês, em 9 de dezembro de 2005, por ocasião das comemorações do centenário da separação Estado-Igrejas na França.

 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Kant e a Instrumentalização da Liberdade



Aula de Filosofia do Direito, ontem...

O professor fala sobre a dialética de Kant. Expõe a teoria dos limites da razão e como didática cita o conceito da Instrumentalização da liberdade. Para o filósofo o importante não é praticar a verdade porque essa lhe foi ensinada, repetida e imposta, mas interiorizá-la na consciência, de modo que não seja o medo da punição a fazer com que se pratiquem as virtudes. Não importa apenas cumprir, mas querer cumprir, a prática da lei deve ter seu âmago na vontade interna do sujeito.

Para exemplificar usou a religião. O discurso da punição pelo pecado, do medo de um inferno usado como instrumentos de manutenção das estruturas dos poderes instituídos. Instrumentos que habitam os espaços já organizados e disciplinados da vida eclesial...

E eu reflito a partir disso de como há mesmo na religião a tal da instrumentalização da liberdade (excetuando-se a parte que disso se pode aproveitar). Sem consciência crítica, autonomia e liberdade, as pessoas vão só obedecendo, ficando tristes, pensando todos os dias os mesmos pensamentos, fazendo todos os dias as mesmas coisas, orando as mesmas orações espontâneas formadas com a colagem de frases feitas e estereotipadas, sem coragem para contar as coisas que acontecem no fundo da sua alma, com medo que isso perturbe a simetria da rotina das estruturas…

Pensando no Direito, é necessária muita coragem para protestar, contrapor, - como sugere o pensamento de Kant - a voz da consciência individual à voz das autoridades constituídas. Fazendo isto, se declara que, se existe um referencial sagrado para o comportamento, se existe um lugar de verdade para o pensamento, tais lugares não se confundem com os lugares do poder, não importa que o poder tenha sido legitimamente constituído. O segredo e a verdade não habitam as instituições (já diria Paulo), mas invadem o nosso mundo através da consciência. O que dá ao indivíduo permissão para pensar com ousadia pensamentos mais avançados. Porque a instrumentalização da liberdade faz com que se reprima o pensamento, e reprimindo-se o pensamento reprime-se a consciência e assim coloca-se a autoridade estabelecida mais alta que a liberdade do indivíduo.

Para Kant, a coerção não seria um sistema legal, mas um sistema moral, visto que para ele Direito e autorização para utilização da coerção significam a mesma coisa. Kant trabalha a ideia do uso correto e justo da coerção de forma a impedir o uso injusto da liberdade. 
Mas é assim que funcionam as coisas. Enquanto o mundo e a sociedade forem o que são a coerção e a instrumentalização da liberdade serão necessárias para garantir a aplicação e a eficácia das normas jurídicas.

Kant era chato...

sábado, 29 de outubro de 2016

Religião e Modernidade




“Junior, pelo que leio em suas postagens, você não gosta de religião...”

Entendo que passe essa mensagem. Porque da parte boa (que é exceção) quase não falo aqui. Os bons leitores hão de me entender. É uma abordagem crítica que faço. Há quem prefira só as rosas... Antes de chegar nelas me atenho aos espinhos. E quantos espinhos a machucar-nos as mãos...

Com raríssimas exceções, a religião ao longo da história, concretamente falando, não apenas apoiou, mas ainda legitimou a escravidão, a submissão das mulheres, o extermínio dos povos colonizados, e, hoje, o vilipêndio de cidadãos da República, pelo fato de serem homossexuais [o conceito de Humanidade vai sempre enfiado goela abaixo da religião pela modernidade laica]. É de suma relevância que os aspectos de insuficiência concreta da implantação dessa plataforma moderna sejam tratados como desvios do padrão, erros, crimes, insuficiências. Isso, em si, é importante. Ainda que o que se pratique em nome disso seja chamado de religião.

A Religião deveria, se formos usar nossas consciências para fazer uma reflexão séria,  converter-se à modernidade e ao humanismo. Deveria assumir, como ponto de partida a autonomia epistemológica, política e religiosa por parte do homem e da mulher dentro de parâmetros Laicos para o Estado Democrático de Direito. E isso nos níveis filosóficos, sociais e políticos. É isso mesmo... A Religião deveria se converter. Por que a religião, essa que está aí, não constitui um fenômeno em harmonia com esses valores não.  Há exceções? 5, 3, 1%?

Alguém dirá que a modernidade tem seus pecados. Claro, e graves, gravíssimos. Não estou discutindo isso. Trata-se, apenas, de reconhecer que um ser religioso, enquanto ser religioso, sequer competência ética tem, (pois aqui mesmo outro dia quando denunciava um corrupto evangélico, fui admoestado pelo religioso de que deveria me calar e que o julgamento dele pertence a Deus) - e isso não sou eu a dizer. Uma dissertação de mestrado, defendida e aprovada na Escola Nacional de Saúde, na Fiocruz, no Rio de Janeiro, argumenta que a heteronomia do sujeito religioso não permite a ele expressar-se eticamente, uma vez que se encontra subjugado por terceiro representado na forma de valor e dogmas heterônomos. Estudiosos falam disso em termos de "possessão" por parte das ideias.

Não sei se minhas ideias são simplistas. Pelo contrário, talvez: considerar como natural a presença da religião, totalmente não-democrática, até anti-democrática, e mais, considerar como messiânica a sua expressão, uma espécie de revelação à modernidade, como por exemplo pela Revolução Islâmica, isso sim, me parece simplista, uma espécie de condescendência a um sistema heterônomo no coração da democracia, onde dependemos da sanidade política dos cidadãos, como se isso representasse respeito aos cidadãos vinculados a esse sistema.

Tem como “gostar” dessa religião?
 
Extratos de peroratio.blogspot.com - Osvaldo Luiz Ribeiro (Pela educação da Religião).

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Meu nome é José...

Tá aí: uma reflexão profunda (teológica inclusive) sobre os nomes que se dão às crianças, profunda mesmo, sobre liberdade infantil, religião e sobre a pedagogia do amor... Lindo! Sua Excelência, o Deputado Tiririca!




quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O Mito como origem do Direito.


O Mito como origem do Direito.

Ontem na aula de Filosofia do Direito uma questão nos bateu a porta. O professor ensina que uma das prováveis origens do Direito, reside no MITO – Citou inclusive a história bíblica de Moisés como exemplo, no episódio em que retorna do Monte Sinai com as tábuas dos dez mandamentos. O Direito assim, por esse entendimento teria lá suas origens ligadas ao Mito. Ele ainda afirmou:

“Mito é mentira? Não... Não tratamos o mito como mentira, mas como um recurso humano para explicar o sobrenatural.”

Mas reflito eu aqui desse lado:

Cientificamente falando seria possível tratar o mito como:

a) descrição profunda da realidade?
b) inteligente?
c) necessário?
d) significante?

Feuerbach chamou isso de alienação. Com o que concordo. Você pode explicar essa alienação de modo marxiano, você pode explicar a alienação de modo freudiano, você pode explicá-la pelo modo nietzschiano - as explicações são variadas, mas o fato, se tratarmos o Direito como Ciência pelo viés da racionalidade, é um só: alienação.

No fundo, os estudiosos que classificaram o mito como uma das prováveis origens do Direito sabem disso. Se forem espremidos contra a parede, confessam que sabem.

Porque então, se eu sei do que se trata, dizer que se trata de outra coisa?

No final de "Deus e os Homens", que Voltaire publicou com um pseudônimo, por razões de segurança pessoal, há uma seção "axiomas". Extraio esses:

  • Nenhuma sociedade pode subsistir sem justiça; anunciemos, pois um Deus justo. 
  • Se a Lei do Estado pune os crimes conhecidos, anunciemos, pois, um Deus que punirá os crimes desconhecidos.
  • Que um filósofo seja espinosista , se quiser, mas que o homem de Estado seja teísta.

Que razão me leva a transcrever os três axiomas? A ideia de como o povo lida com o mito e de como o filósofo lida com o mito e de como o "homem de Estado” lida com o mito.

A "sociedade", precisa de justiça e, nesse caso, ele afirma, deve-se anunciar um Deus justo que pune os crimes desconhecidos. Trata-se, aí, da introjeção subjetiva do Medo e da Obediência pelo medo. 

Há, aí, duas implicações: a sociedade precisa disso, mas o filósofo sabe que isso é mero mito político. Se o filósofo sabe, mas a sociedade tem que ter isso, deduz-se que a sociedade não deve saber que se trata de mito, deve acreditar nisso como verdade - caso contrário, cometerá os crimes, porque saberá que não há castigo divino, se é que há Deus. Por isso - POR ISSO! - o homem de Estado não pode agir como filósofo, ainda que seja: deve usar a "teologia" e anunciar, enquanto homem de Estado, um Deus justo que castiga o criminoso que peca em segredo...

Ora - estamos diante de uma leitura bastante cínica da sociedade - real, mas cínica. Os políticos querem a sociedade funcionando, e sabem que a religião é uma ferramenta - se não "a" ferramenta - especial para isso: pôr medo nos corações faz com que uma parte boa da população se comporte, com medo. O filósofo ri-se disso, e isso é risível mesmo, o próprio Voltaire riu-se disso nas páginas de Deus e os Homens. O que é intolerável para ele é que o homem de Estado não assuma o discurso do Deus punidor - ele tem de ser teísta...

Você consegue perceber o "jogo"?

A sociedade foi cinicamente dividida entre iluminados - os filósofos e o homem de Estado -, de alienados manipulados - o povo - e de manipuladores esclarecidos - o homem de Estado.

O que me assusta - e por isso não posso ser um homem de Estado, sequer um líder religioso, é ter que assumir que o povo é alienado e ignorante e assim deve ser mantido, que eu, enquanto filósofo, posso dar meus voos de esclarecimento, mas que, quando volto a lidar com o povo, para que cada coisa permaneça no seu lugar, eu lhes diga, contra tudo que sei, que Deus está no controle, e castigará os ladrões...

Não, essa política não é para homens honrados e íntegros: é para déspotas esclarecidos, como, de resto, se fazem inclusive os homens de Deus - quando são esclarecidos!


É... talvez seja assim que as coisas devam ser... Mito não é mentira.


Extratos das postagens de Osvaldo Luiz Ribeiro - "Da justiça de um povo e da ideia de um Deus Justo" - peroratio.blogspot.com

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Eu protestante


Junior... você ainda é protestante?

Acho que sim...

“Memórias não podem ser esquecidas. O passado, uma vez vivido, entra em nosso sangue, molda o nosso corpo, escolhe nossas palavras... de um jeito ou de outro, aquilo que já fomos continua vivo em nós, seja sob a forma de demônios que queremos exorcizar e esquecer, sem sucesso, seja sob a forma de memórias que preservamos com saudade e nos fazem sorrir com esperança.

Digo isto como prelúdio a uma confissão: sou protestante. Sou porque fui. Mesmo quando me rebelo e denuncio. Minha estória não me deixa outra alternativa. Sou o que sou em meio às marcas de um passado. Mesmo que eu não quisesse, este passado continuaria a dormir comigo, assombrando-me, às vezes, com pesadelos e fúria, às vezes, fazendo-me sonhar com coisas ternas e verdadeiras.

Não foi no cérebro que me tornei protestante. Ao contrário, minha fé é companheira de imagens, memórias, perfumes, músicas, solidões, retiros, caminhadas por campos e beira-mar; rostos, sorrisos, funerais, injustiças, esperanças enterradas, algumas ressuscitadas; certezas de lealdade a toda prova… E aqui eu teria de ir colocando nomes: presenças ausentes com quem compartilho a minha vida. É isto. O decisivo não é a ideia. O decisivo é a pessoa que a gente invoca, não importa que já esteja morta…

Dizendo de outra forma: não sou protestante em virtude das ideias que tenho. Não somos o que somos por termos as ideias que temos. Temos as ideias que temos por sermos o que somos. Primeiro vem a vida, depois vem o pensar…

É necessária muita coragem para protestar, contrapor a voz da consciência individual à voz das autoridades constituídas. Fazendo isto, se declara que, se existe um referencial sagrado para o comportamento, se existe um lugar de verdade para o pensamento, tais lugares não se confundem com os lugares do poder, não importa que o poder tenha sido legitimamente constituído. O segredo e a verdade não habitam as instituições (já diria Paulo), mas invadem o nosso mundo através da consciência.

A primeira coisa que ela (a consciência) faz é colocar um enorme ponto de interrogação sobre as cabeças das pessoas que se dizem autoridades religiosas, políticas, militares, não importa. E é necessário dizer que a autoridade é algo estranho ao espírito do Novo Testamento. Quem quiser ser o maior, que seja o servo. Substituir a espada pelo lava-pés. Deus, poder e verdade, abre mão de tudo, esvazia-se… Leia-se o Novo Testamento e veja-se o papel que as autoridades desempenham ali, a partir de Herodes, mandando matar as crianças, até as autoridades romanas e autoridades judias, mandando matar Jesus. Parece que as pessoas em posição de autoridade são mais suscetíveis à idolatria e à crueldade. É isto que nos conta a história. É claro que a ordem é necessária para tornar possível a nossa convivência. E destas coisas, surge, aos poucos, o espírito da democracia, expressão do doloroso reconhecimento da necessidade da autoridade e da determinação de manter sempre a autoridade no seu devido lugar: não em cima, mas em baixo, como serva e funcionária do corpo sacerdotal – claro! – o povo todo, cada um deles um sacerdote.

Depois ela (a consciência) nos dá permissão para pensar com ousadia os pensamentos mais loucos e avançados. Reprimir o pensamento é reprimir a consciência, é colocar a autoridade estabelecida num nível mais alto que a liberdade do indivíduo. Sei que isto horroriza aqueles que habitam os espaços já organizados e disciplinados da vida eclesial. Tudo já está previsto. O futuro não pode ser diferente do passado.

Mas os comportamentos mudam através dos tempos, e com os estilos de vida surgem novas formas de pensar e novas formas de falar sobre Deus, sobre Cristo, sobre a salvação… E quem seria aquele que tomaria da espada para liquidar os diferentes? Com que direito? Quem quer que se atreva a liquidar os dissidentes está possuído da ilusão de ser o detentor do monopólio do divino, e sucumbe à tentação e à crueldade da espada – eclesial ou secular, não importa.

Posso bem perceber o espanto incrédulo nos olhos do meu leitor, protestante de muitos anos, que julga ouvir coisas tão insólitas. E ele procurará ao seu redor para ver onde é que este protestantismo se encontra. Entre os Batistas? Na Igreja Presbiteriana? Quem sabe nas Comunidades Protestantes? Que dizer dos Metodistas? E vamos caminhando, inutilmente, reconhecendo as pedras, os espaços, identificando a voz da autoridade, ouvindo o barulho típico da tesoura de poder que corta um broto novo… O futuro deve ser uma continuação do passado. As mesmas ideias. A verdade já foi cristalizada em séculos idos. Proibidos de explorar o novo, de pensar o insólito… E as pessoas vão ficando tristes, pensando todos os dias os mesmos pensamentos, fazendo todos os dias as mesmas coisas, orando as mesmas orações espontâneas  formadas com a colagem de frases feitas e estereotipadas, sem coragem para contar as coisas que acontecem no fundo da sua alma, porque isto pode perturbar a simetria da rotina…

Então pra quem me perguntou eu o faço perguntado agora: O que é ser protestante: Uma adesão a conteúdo e prática normativos? Ou ser protestante é um modo radicalmente novo - e cada vez mais novo - de lidar com as Escrituras, com a "fé", com a vida? Ser protestante tem a ver com processo de consciência? Ou tem a ver com manutenção da tradição? O que é ser, afinal, protestante? Quem sou eu, afinal? Quem é esse que me olha, agora, desde o coração da angústia?

Tente explicar...


De recortes do texto de Rubem Alves - “Confissões de um protestante obstinado”:

sexta-feira, 11 de março de 2016

Fazer aniversário é regenerar-se...



Fazer aniversário é regenerar-se... e é preciso... Eu preciso...

Primeiro no amor... regenerando em mim a paixão por Nilce, reavivando-a, como brasa, pelo sopro do carinho e do afago. Isso me mantém vivo.

Depois, regenerar-me enquanto estudante. Reavaliar minha relação com o saber – é com ele que (acho) me relaciono melhor. Regenerarei, então, minha relação com o saber. Reavaliarei minhas bases, meus pressupostos...

Regenerar minha carreira profissional. Ah, isso é urgente. Talvez essa seja minha última ansiedade atual. Resolvida essa questão, pressinto uma alegria jovial inundando todos os pontos de meu corpo, porque, a rigor, sou um homem feliz e de sorte: Nilce, Júlia, Joás; isso é muita sorte para uma única vida. E, no entanto, as urgências burocráticas da vida sabem fazer-se notar. Assim, é preciso que eu me regenere nesse campo...

Sim... regenerar-me... Porque é fácil morrer! Difícil é a vida...

Feliz 45 J


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Se isso é ser Cristão...

Conversa de segunda-feira de manhã, meu colega de trabalho diz bom dia e pergunta (pra me provocar): Foi na igreja ontem? Ele me conhece, conhece a minha historia, e faz a pergunta só pra me ver dar aquela risadinha irônica... e só a risadinha já responde a pergunta dele... O que  ele esperava mesmo é ouvir de mim (além da risadinha), alguma crítica em relação ao assunto. Talvez porque lá na “igreja” aonde ele vai, ninguém fale, sobre o que ele gosta de falar comigo... 


Já tivemos essas conversas muitas vezes e ele sabe que meu objetivo é a crítica transformadora. Não é a crítica destrutiva. Interessa-me saber o que o sujeito pensa, no que ele acredita, em que ele se engaja, a que ele se dedica.


Mas... como disse um pastor pra mim dias atrás: “é cômodo ficar olhando a distância e tirando conclusões, apenas criticando de forma inconsequente”... O meio não suporta críticas. Uma vez que você saiu do “templo”... Você está longe ... Sabe aquela história do pedreiro que constrói um muro torto? Se você não é pedreiro, como pode falar mal do serviço? É mais ou menos por aí... Viva com o muro torto e não diga nada...


Mas são apenas palavras, que eu mesmo não pegarei em armas contra os poderes eclesiásticos...


O que significa, hoje, dizer que se é cristão? Há tantos modelos!, e modelos antagônicos!. E, no entanto, todos eles se dizem cristãos. Assim, "cristão" virou um rótulo de grife, com pouquíssimo conteúdo histórico. De modo que a questão me parece irrelevante. Os meus valores são, em certo sentido, protestantes, no sentido teórico-filosófico da corrente. Teologicamente, não: porque o Protestantismo é "clássico", e minha teologia não acompanha mais a estrada clássica, das doutrinas reveladas.Se isso é poder ser chamado de cristão, sou.

Se ser cristão é estar, dia sim e dia também, em templos, sentado, de pé, calado, pulando, ouvindo sermões que, muitas vezes, não têm nenhuma fundamentação nem em Bíblia nem em Tradição alguma, a mistura de mau gosto entre Faustão, Pânico na TV e Jô Soares; se ser cristão é repetir, sob a batuta de um sacerdote disfarçado ou ordenado, mantras, mitos e modas; se ser cristão é condenar todos os outros religiosos; se ser cristão é ficar a olhar para cima, é ficar repetindo jargões planejados, se é entrar no grupo de louvor à Teló; se ser cristão é querer impor a todos os outros minha moral, minha tradição e as verdades de "meu Deus" - bem, game over.



Mas quem disse que isso é ser cristão? Eles? Ah... entendi....



Certamente que encontrarei em mim, ainda, muito da tradição cristã. Não a negarei, jamais. Mas, ao contrário de muitos de meus amigos, meu discurso não é de didática positiva, de escrever sobre as coisas boas do Cristianismo, com o intuito de que se deixem de fazer as coisas ruins que igualmente o caracterizam. Não - eu pinto, com cores fortes, os crimes que cometeram contra mim e que se cometem dentro das “igrejas” às quais meu colega perguntou se eu teria ido ontem...



E vamos trabalhar... que a Segunda-Feira é braba...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Gerências...


Sobre a rotina corporativa e as relações em seu ambiente - Não é de todo agradável. Todavia, é mais fácil do que parece, à primeira vista. Porque, a rigor, as cenas são sempre as mesmas, as pessoas, muito parecidas, os problemas, quase cópias uns dos outros. A forma de se gerenciar é uma roda - fazê-la rodar perfeitamente, a isso reduz-se a tarefa. O desafio é o eixo, a roda em si, as pedras, a estrada, e, afinal, até, o rumo...

Em qualquer situação, gerir as situações nesse mundo é lidar com o medo. Há dois modos de medo, incontornáveis, numa gestão. Cada um responde por um ambiente:Ambiente um, marcadamente político: o medo é o de não fazer parte da "panela". Onde quer que estejamos, seja numa empresa, numa ONG, numa repartição pública, se o ambiente, se a regra do jogo, são as relações políticas, o medo se instala entre aqueles que não fazem parte da panela.

Ambiente dois, marcadamente de resultado: o medo se instala entre aqueles que, a rigor, ou possuem reais deficiências de performance, ou têm de si uma perspectiva, digamos, de baixa estima. Só os melhores sobrevivem nesse ambiente, é a regra, e o medo se instala então entre os não melhores e/ou entre aqueles que se acham menos eficientes.

Mas não há como fugir desse medo, senão por meio de terapias de autocontrole... O medo há de revelar-se fundado ou não. Mas sempre lá está ele, nos olhos, no comportamento mal disfarçado de uns, na agitação solícita de outros. Medo.

Medo, porque, a rigor, todos estão ali pelo pão. O que, sob a perspectiva do gestor, é um equilíbrio de eficiência no corpo institucional - para o sujeito humano, isso representa, se ele é descartado, um colapso a médio prazo - de onde virá o pão? Mesmo entre religiosos, que sabemos que o maná é bem um mito narrativo... Na prática, o maná virá na forma de outro emprego, na ajuda familiar, essas coisas, porque, cair do céu, literalmente, isso todos sabemos que não acontece.Como fugir desse estresse? 

Não tem como. Se você é bom, mas não é da panela, e se o ambiente é político, você corre sério risco de dançar. Se você não é bom, mas é da panela, mas o ambiente é de resultado, você corre o risco de dançar. E, de mais a mais, se mesmo você sendo bom, não havendo panelas, mas o cobertor parece curto demais, como você relaxa? Não relaxa. Religiosamente, você ora para que a teologia esteja errada, e as pessoas não sejam livres, e Deus possa fazer o gestor fazer o que você e Deus querem que ele faça - manter você. Por que no caso do religioso, ele tem essa vantagem, a de achar que Deus pode fazer um gestor fazer o que ele,  Deus, quer, sem que isso seja o que ele, gestor, queira...Tem a ver com a Teologia Calvinista – Deus, (ou o gestor) já escolheu desde o princípio, alguns desses seres humanos para salvar... Será você um deles?

peroratio.blogspot. com

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

De quando fazemos Deus ser a imagem de nossos interesses

Peroratio: (2012/694) De quando fazemos Deus ser a imagem de ...:

1. Vou lidar aqui com a tradição do Antigo Testamento. Parte do que vou dizer tem sustentação apenas nesse tradição, porque os fatos históricos não se deram da forma como a tradição os conta. Todavia, como o que me interessa é justamente a forma como os "judeus" (uma parte deles) se viram e contaram a sua tradição (de forma sempre política, como programa de controle social), se há divergência entre as coisas tais quais se deram e a tradição não faz a menor diferença...













quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Eu monge...




Eu monge...

Aprendi a ler a bíblia criticamente...

Aliás, dizer que se leu algo – seja o que for -  e não ser crítico, para mim, é a mesma coisa que não ler.

No caso da Bíblia, para você tentar entender o que o texto - seus autores - quiseram dizer, você precisa dizer que é leitura crítica, de tanta alegoria e embromação que o mundo conhece e de que as livrarias estão abarrotadas. Mas se poderia simplesmente dizer ler historicamente. Ler histórico-criticamente... Ler para entender. Ler para ouvir. Pois quando se quer saber se uma pessoa é mais do que um analfabeto funcional, vê-se se ela sabe entender o que um texto quer dizer.

Na minha experiência, portanto, a leitura crítica da Bíblia, serve para duas coisas:

a) entender o que os autores e os textos quiseram dizer - essa é minha "religião".

b) salvar-se das garras de "gerentes de boca", "homens de deus" que se arvoram em messias, em apóstolos, em papas, em "pastores", que acham que podem determinar o que Deus pensa, quer e diz, que controlam massas e multidões pela crença, pela fé, pela ingenuidade. Nenhum deles resiste à leitura crítica, porque só faz leitura crítica quem já se libertou. Por isso, têm horror à leitura crítica, porque ela liberta a ovelha do redil, liberta o gado do curral...

E nada disso era preciso.

Não fora a invenção do controle das pessoas pelo "ungido"; fosse a igreja, de fato e verdadeiramente, uma comunidade de libertação e liberdade; fosse a comunidade de crença uma comunidade pedagógica, de autonomização das pessoas; se fosse, mesmo, de verdade, um lugar de gente livre - e não é nada disso, então não se precisaria temer a leitura crítica, porque isso nada diria do modo de ser das lideranças evangélicas. Mas, como os pecados políticos dos sacerdotes da Bíblia se repete nos "homens de Deus" de hoje, quando você lê e desarma o jogo bíblico, você automaticamente lê e desarma o jogo político das comunidades...

Não era preciso.

A culpa não é da leitura crítica. Conheci e fui aluno de um pastor cuja leitura crítica da Bíblia não era problema, não é verdade, Elinaldo Pita? A crítica, desconstrutiva da tradição nasceu lá, na aula de filosofia, a convite dele.

Eu só cansei. Não vale a pena. Foi um golpe de sorte aquele encontro. Mas é raro, e não vou me desgastar, não mesmo, que estudar a Bíblia com seriedade demanda tempo e energia, energia que não vou gastar com enfrentamentos inúteis em comunidades presas pelo dogma e pela política pastoral.

Não vale a pena.

Mas insisto: todo pastor que demoniza a leitura crítica da Bíblia tem, no fundo, é medo de ela revelar a consistência de seu domínio bíblico, de revelar o fato de que ali, dizendo tratar-se de Bíblia, se prega tradição mal e mal manejada, enganação, retórica, negligência...

Repito: a culpa não é da leitura crítica.

A culpa é da qualidade pastoral, cada vez pior, que, não podendo suportar a leitura do próprio livro sagrado, inventa para ele uma leitura cada vez mais acomodada aos jogos sacerdotais, de massa, de catarse...

Resistirei. Esperarei. Se os dias maus passarem, passaram. Se não passarem, não terei deixado o vento mau desses dias lamber a minha face... Não, não vou deixar.

E, enquanto resisto, estudo. É, no fundo, uma espécie de monasticismo meu, de refúgio no deserto - monastério da resistência...

Eu, monge.

Texto “emprestado” do Professor Osvaldo Luiz Ribeiro...

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Evangelismo - A Estratégia da Sedução

“Persuadiste-me, ó SENHOR, e persuadido fiquei; mais forte foste do que eu, e prevaleceste...” (Jeremias 20:7).
 
Nesses dias não é fácil falar sobre evangelização, porque essa é uma palavra usada por muita gente e de diferentes maneiras. Há quem pense na evangelização apenas como expansão da igreja, crescimento da instituição e aumento explosivo do número de batismos e nomes na relação de membros.
 
Em geral quem entende evangelismo dessa forma, fica muito preocupado com os relatórios anuais, porque os avalia em termos mercantilistas, próprios à ideologia do sucesso que nos rodeia. Entendo que embora importantes, o aumento da membresia e o crescimento de uma igreja, são muito mais a conseqüência do evangelismo que propriamente sua natureza. Quem deseja medir a qualidade da fé com base nesses critérios, terminará contribuindo para o desenvolvimento da desagradável competição de estratégias missionárias entre igrejas e denominações, disputa bastante discutível do ponto de vista ético e teológico.
 
O texto bíblico contido no livro do profeta Jeremias nos indica um sublime caminho em direção à forma de evangelizar.
 
“Persuadiste-me, ó SENHOR, e persuadido fiquei; mais forte foste do que eu, e prevaleceste...”
 
Muitos de nós conhecemos a estória do Pequeno Príncipe, clássico infanto-juvenil de Saint-Exupéry, transformada recentemente em filme. Em certo trecho do livro, o principezinho encanta-se com a beleza de uma raposinha e lhe diz: “venha aqui brincar comigo”. Mas a raposinha responde: “Eu não posso... não fui cativada ainda...”. O príncipe lhe pergunta o que significa cativar, e a raposa responde: “Cativar é criar laços. Você não é para mim nada mais do que um menino entre outra centena de meninos. E para você, eu sou apenas uma raposa, como outras tantas raposas. Mas se você me cativar, nós sentiremos falta um do outro. Você será para mim o único no mundo e eu seria para você a única no mundo”. Depois disso, dia após dia, o pequeno príncipe aproximava-se pouco a pouco da raposinha. Ambos se cativaram.
 
Cativar alguém é um ato elevado. E é assim que Jeremias descreve a ação de Deus. Ele o cativou, o seduziu. E ao agir assim, revelou-se não como um Deus preocupado com mais um, mas um Deus cuja marca central é a pessoalidade, o amor, a gratuidade, o encanto. Isso nos leva a compreender melhor o que significa a palavra evangelizar. Não é somente convencer alguém a respeito de certas doutrinas. Mais do que isso, é cativar as pessoas, compartilhar com elas nossa própria vida, tal como Cristo fez (e faz) conosco. Foi o que aconteceu entre o pequeno príncipe e a raposinha – ambos compartilharam seu tempo um com o outro.
 
Evangelização tem necessariamente que passar por essa via: aproximação gradativa e constante, tal como o principezinho aprendeu. E esse movimento não pode ser motivado apenas pela busca de resultados dos quais possamos nos orgulhar. O principal objetivo da aproximação é servir, compartilhar Cristo e contribuir para que a vida do nosso próximo seja mais livre, feliz, realizada e completa.
 
Quando nós cristãos aprendermos que a evangelização deve ser conduzida de modo diferente sem querermos tanto a qualquer preço que as pessoas aceitem nossa doutrina, quando passarmos a dedicar mais tempo a cativar as pessoas, então a fé cristã se tornará muito mais relevante.
 
Quando a evangelização começar a acontecer em outra perspectiva, com encanto e ternura, haverá mais abraços e a saudação de paz será realmente sinal de reconciliação entre Deus e entre nós, sinal de restauração de relações rompidas, sinal de graça nas ruas e praças. E nós temos urgência disso, principalmente em nosso mundo, tão marcado pela violência e perda de sensibilidade.
 
Espero que o texto de Jeremias nos ensine a compreender a evangelização numa nova perspectiva. A opção pelo abraço, o encanto, a poesia, o despertar da sensibilidade, do carinho e da acolhida. E que a graça de Deus me ajude a cativá-los...
 
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"; (Antoine de Saint-Exupery)

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